Neuromancer - A Selvageria da Ciência

Curiosidades e fatos da biologia e outras áreas, com direito a discussões.

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Arquivo de: Julho 2007, 17

17.07.07

Energia X Forma de comer caqui

categorias: Discussões

Bom, eu sou meio estranho, e consigo ficar encucado com minhas próprias idéias. Então eu expandi a discussão de energia começado em outro tópico, para um grupo de veteranos meus, e da confusão toda acabou saindo isso. Vocês verão que não será a única discussão que tenho feito com eles, por isso os nomes deles irão aparecer um monte aqui. Mas como já me disseram antes, várias cabeças pensam melhor que nenhuma... E eu estou atualmente com neurônios sofrendo seleção natural por pressão alcoólica, e com isso acho que faltam informações para passar para vocês leitores.

Enfim, querendo saber se tem alguma relação entre tamanho de mamíferos terrestres e sua alimentação, conversei com Fernando Camargo Jerep, Luiz Fernando Alvarez, Fernando Fiorin, e Renato Pires Machado, todos formados em Ciências Biológicas, da Universidade Estadual de Londrina. Cada um deles com uma área de interesse específica.

A brincadeira gerou a seguinte discussão:

Renato acabou colocando em questão então que antes das Américas se juntarem nós tínhamos bichos gigantes aqui. Depois que ocorreu a junção, estes grandes mamíferos perderam espaço para os que migraram para cá. Pois estes, vamos assim dizer, entraram como invasores e se adaptaram bem, acabando com os que estavam aqui.

O fato de hoje não termos bichos grandes aqui, todos desse grupo acreditam que é em relação ao ambiente, grande parte dos nossos ecossistemas são de áreas de mata fechada, que de certo modo impossibilita um grande crescimento. Ao contrario da África, onde a maior parte é de savana.

Se a gente parar pra pensar não tem o por quê ter carnívoros muito grandes, é porque os herbívoros de hoje não são tão grandes assim. Dois leões pequenos dão conta de matar um antílope, que é comida mais que suficiente para eles.

Eles deixam de gastar energia para o crescimento para investir nos filhotes. Renato ainda diz que acredita que os filhotes de carnívoros gastam mais energia, e levam mais tempo para serem independentes do que os de herbívoros. Porque caçar um bicho é mais difícil do que caçar grama. Segundo Luis Fernando, mamíferos grandes como elefantes não precisam correr atrás das plantas. Nem pular. Nem se esconder. Eles só perambulam. Eles não são nem capazes de pular.

O Renato acha também que a vida em sociedade contribui também para que os carnívoros não precisem crescer tanto. Não é preciso ser gigante para matar uma presa, basta ter outros dois animais cooperando que já ta valendo. Outra, é mais fácil três carnívoros pequenos se esconderem e se camuflarem para pegar uma presa do que um carnívoro gigante. E grande parte dos carnívoros caça desta forma.

Já com os comentários do Fiorin, pode-se adicionar que ele não acredita que a megafauna se extinguiu apenas pela questão da invasão de outras espécies.

Ele complementa a teoria de que a extinção dos carnívoros mamíferos terrestres foi causada pela mudança climática. Até onde ele se lembra, a teoria é do Mario Devivo, de que a floresta amazônica foi a grande culpada pela extinção da megafauna, uma vez que ela tomou um grande espaço que era ocupado pela mesma.

Fiorin comenta que essa configuração biogeográfica de campos no Brasil é recente... Então pode ser que as criaturas da megafauna perderam todo o espaço que precisavam para viver e assim as invasoras melhor adaptadas e mesmo as espécies que ocorriam em um tamanho menor ganharam a luta pelo espaço.

O maior carnívoro terrestre que temos hoje em dia é o urso pardo. Só que ele come de tudo, sendo um onívoro, desde fruta, insetos à carne. Mas boa parte do crescimento dele se deve ao fato dos salmões, durante uma época do ano, o que disponibiliza muita energia. Se um indivíduo perde esta temporada de comida em fartura durante uma temporada, facilmente ele vai se dar mal. O mais interessante, complementando a teoria de Devivo, é o urso pardo ocorrer numa região temperada, ou seja, com espaço aberto... Ao contrario de uma floresta tropical fechada.

Jerep entrou com uma série de idéias, como sempre de forma mais eloqüente e sucinta. Ele comenta que com comida de sobra todos comem mais e se preocupam menos... Daí resta energia para investir contra predadores e em fêmeas... E em ambos os casos (pelo menos na maioria) o aumento do tamanho é a melhor alternativa contra predadores e na batalha por uma fêmea, isto quando não há outro fator ambiental agindo contra o aumento de tamanho (como seleção sexual e incompatibilidade ecológica).

E na cabeça avançada de Jerep isso tem bastante a ver com carnívoros, herbívoros e lutadores de sumô.

Dá para se analisar também o caso oposto, como ocorre com colonização de ilhas. Onde animais de grande porte tendem a diminuir de tamanho pela escassez de recursos, e animais pequenos tendem a aumentar de tamanho pela abundância de recursos ainda não explorados.

Na opinião humilde dele, tudo é uma questão de biomassa e pirâmide de energia.

A biomassa conjunta dos predadores nunca pode ser maior que a biomassa conjunta de sua presa. Isso vale para herbívoros e carnívoros, já que ambos são predadores, uns de vegetais, outros de animais.

Fiorin, e todos os outros concordaram com Jerep, que se existe uma quantidade suficiente de energia no ambiente isso vai permitir a expansão do tamanho, seja herbívoro ou carnívoro. Ele ainda acresce que existe um texto antigo de Stephen Jay Gould que explica essa relação de Peso X Tamanho. Fiorin comenta que existem informações falando de uma relação Tamanho X Latitude, sendo que o tamanho aumenta conforme se aumenta a latitude, vindo então elas de Douglas J. Futuyma.

Foi-se levantado a questão que existiram dinossauros carnívoros muito grandes, e que isso seria contraditório à toda essa discussão colocada aqui. Porém, além da parte de que na época dos dinossauros existia mais espaço e mais energia disponível, como discutido acima, Chris Carbone, como eu mencionei em um comentário em outro tópico, falou que eles sofreriam outra forma de pressão ecológica para obter tamanhos tão assustadores. Clique aqui para o comentário.


Luis Fernando adiciona a isso, que outro motivo é porque ser grande é vantajoso pra quem é exotérmico. Até o calor lá do miolo do animal se dissipar demora. Para se esquentar o animal gasta muita energia. Esquentar um monte de carne, portanto, é mais caro ainda.

Mas Fiorin lembra que seria necessário ter uma visão mais holística do motivo, e não se restringir somente a algumas poucas teorias. Exemplo disso é que existem mamíferos carnívoros enormes, na água, como a baleia azul. Ela se alimenta de zooplâncton, que é a parte animal do plâncton que se encontra no oceano.

Mas de novo, há uma chance grande delas possuírem tamanhos colossais por existir energia suficiente no nível inferior da cadeia alimentar para sustentar seu tamanho.

Cruzamentos incruzáveis

Deparei-me hoje com uma notícia um tanto quanto engraçada. Na Alemanha foram colocados ao público o resultado de dois cruzamentos incomuns no reino animal: um de tigre com leão e outro de zebra com cavalo.

Digo incomuns pois na Natureza, em ambiente onde tais espécies se encontram, não ocorrem esses tipos de cruzamentos. Mas o ser humano, do jeito que é curioso, acaba possibilitando esses encontros amorosos "interraciais". E olha que não rola briga entre as famílias dos casais!

Bom, chega de besteira: no caso do "Liger" (leia-se laiguer), um nome híbrido como o animal, ocorreu no zoológico privado Arca de Noé, localizado na vila de Groemitz, na costa alemã do mar Báltico. Eles apresentaram nesta terça-feira dia 17 de julho o híbrido Bahier, uma cruza de um leão com uma fêmea de tigre.

 

Nosso querido Bahier nasceu em 1990, e desde então vive normalmente no zoológico. Se é que um Liger pode viver normalmente... hehehe.

 

Quanto ao outro cruzamento, a "egüebra" ou "zégua" Eclyse nasceu no zoológico do parque safari Stukenbrock, na Alemanha, fruto do relacionamento entre uma zebra fêmea e um cavalo.

Normalmente, as cruzas entre cavalos e zebras costumam resultar em animais com o corpo totalmente listrado. A gravidez das zebras dura entre 365 e 375 dias, enquanto a das éguas é de 330 dias. No entanto, ninguém sabe quanto tempo a mãe de Eclyse esteve prenhe.

Sabe-se que já na época colonial houve cruzamentos das duas espécies de Equidae na África, e até hoje a prática é comum. No Quênia, por exemplo, os animais são criados para passeios turísticos.

Nos Estados Unidos, os "zebralos" são criados como hobby e para monta. Quase sempre, os pais são um garanhão zebra e uma égua, já que cavalos costumam ser mais dóceis que zebras.



Eclyse parece ter herdado o impetuoso temperamento africano da mãe, mas os tratadores do zoológico Stukenbrock vêm conseguindo domá-la. A idéia agora é encontrar um companheiro para ela, já que tanto zebras quanto cavalos são animais que vivem em tropas.

 

Bom, o maior problema em encontrar companheiros para ambos animais, é a grande possibilidade deles terem nascidos inférteis. Isso ocorre porque na grande maioria desses cruzamentos incruzáveis, os doadores dos respectivos códigos genéticos possuem um n (número de cromossomos) diferentes um do outro. Com isso, ao parear os cromossomos, alguns se encontrarão isolados. Consequentemente, na divisão meiótica, a célula se encontrará um tanto quanto confusa, fazendo com que não seja possível a produção de gametas.

Exemplo desses cruzamentos de produção inférteis seriam, os mais comuns para os brasileiros, os jumentos, que são descendentes inférteis da mistura entre burros e cavalos.

Para curiosidade, existe uma espécie de golfinho, chamada de Tursiops tursiops, que para muitos pesquisadores brasileiros é considerada beeeem promíscua. Já foi notificado tentativas de acasalamento dessa espécie com outras de golfinhos brasileiros, porém ainda não foi descoberto algum descendente desse ato transgressor... =]

Enfim, esse último sim é algo interessante, pois não é comum encontrar na Natureza alguma relação amorosa interespecífica.

Mas que o zebralo é bonito, bom, isso não se pode negar. E tem aqueles que irão gostar do Liger...